A EUROPA, por intermédio do BCE, como temos salientado…
A EUROPA, por intermédio do BCE, como temos salientado está praticando o mesmo modelo americano de passado recente, aumento substantivo da liquidez e corte na taxa de juro.
Desenvolve esta estratégia com objetivo, já também abordada em nossos comentários, de proporcionar liquidez abundante, a um custo de 1% a.a., minimizando as dificuldades de rolagens de dívidas soberanas dos países da região em situação fiscal fragilizada e, ao mesmo, evitando que sejam submetidos a taxas de juros exorbitantes.
Marginalmente, mas não por isso menos importante, visa com a medida desvalorizar o euro, dando assim maior competitividade aos produtos da região no comércio exterior, buscando com isto dinamizar as atividades da economia europeia via exportações, já que internamente a Europa enfrenta problemas de desemprego e renda.
Os ESTADOS UNIDOS, por intermédio do FED, sinalizaram inicialmente um esboço de reação a esta estratégia, porém sem mencionar diretamente a ação do BCE, anunciando a manutenção do juro estável até 2014, e, ainda, citando um eventual novo programa de incentivos focando estimular a atividade econômica. Foi pontual, deixando evidente a percepção da estratégia europeia.
Ontem discursando perante o Comitê do Orçamento da Casa dos Representantes dos Estados Unidos, Ben Bernanke, ressaltou que o endividamento do setor público representa um risco cada vez maior para a economia norte-americana, “mesmo depois que as condições econômicas tiverem voltado ao normal”. E mais, que estima que o déficit do governo possa superar 4% do PIB no ano fiscal de 2017, mesmo considerando que a economia americana tenha um alto nível de emprego, destacando que nos últimos 3 anos fiscais a dívida representou em torno de 9% do crescimento econômico do país. Por fim, alertou que no longo prazo, a atual trajetória da dívida federal ameaça afastar a formação do capital privado e assim reduzir o crescimento da produtividade. Considera que a maior parte dos gastos públicos dos Estados Unidos são financiados por países estrangeiros, e assim, boa parte da renda futura do país estaria comprometida com o pagamento de juros, para concluir que elevados níveis de dívida também reduzem a habilidade dos políticos para responder efetivamente aos futuros choques econômicos e outros eventos adversos.
Porém, ao retomar as considerações sobre a economia americana, destacou que continua “lenta e frustrante” nos Estados Unidos, mas foi adiante, também na Europa e agora a crise da dívida representa um desafio adicional. Salientou que “os riscos permanecem de que a situação da Europa ou também de outros lugares podem se desdobrar desfavoravelmente e podem piorar ainda mais as perspectivas econômicas americanas”. Deixou claro que defenderá protegendo a economia americana da Europa.
A EUROPA, através o BCE, deverá no próximo dia 29 promover novo leilão de liquidez em estimados Euros 1,0 Tri e espera-se, também, que reduza o juro atual de 1% para 0,75% ou quem sabe ousados 0,50%.
A fala de BERNANKE ontem deixou clara a intenção de anunciar um “QE3”, pelo que foi criticado pelos republicanos que entendem que este tipo de estratégia é inflacionista, e anunciou nova projeção reduzindo o crescimento do PIB de 2012 de 2,7% para 2,2%.
Há clareza de que Estados Unidos e Europa confrontarão suas moedas, já que a saída imediata para ambos elevarem o nível de atividade de suas economias é aumentar as exportações.
É possível que o FED seja mais criterioso neste “QE3” que pode ser anunciado, acreditamos, logo após o leilão de liquidez do BCE, colocando algumas “amarras” para que não haja um desvio preponderante dos recursos para especulações nos ativos de risco e os desviem dos objetivos de reaquecer a economia. O FED precisa ser mais criativo desta vez.
É natural que os países emergentes “sintam a possibilidade” de serem pressionados por nova enxurrada de recursos especulativos, mas esta é uma hipótese não uma certeza pois, em tempos de crise que não se resolve, a segurança prepondera sobre a rentabilidade, e pode haver represamento na própria origem.
O Brasil não tem em perspectiva um crescimento expressivo do seu PIB, devemos ficar no entorno do mesmo de 2011, e as “commodities” tendem a não ser responsivas tanto quanto foram num passado recente a elevação de seus preços, até porque economias mais debilitadas tendem a comprar menos, e isto reflete inclusive nas demandas chinesas.
Seria recomendável a agilização do corte da taxa SELIC, para, preventivamente, fazer com que o juro brasileiro perca atratividade, considerando o gravame das barreiras já existentes.
Juro baixo com dólar baixo impacta na taxa de juro dólar do cupom cambial reduzindoa, desestimulando as arbitragens especulativas.
Mas nada garante que o pressuposto de intenso fluxo para o Brasil se confirme, há economias emergentes que estão sinalizando ritmo maior de crescimento que poderão competir com o Brasil.
De toda forma, acreditamos que o FED desta vez seja mais criterioso na concessão e no direcionamento dos recursos para a própria economia americana.
No nosso entender, as perspectivas de médio/longo prazos são bem diferentes das que fundamentam os intensos movimentos que ocorrem focando o curtíssimo prazo.
Então, o final do ano poderá ser bem diferente do que se verifica neste início do ano. Certamente não haverá imunes, todos terão sua cota para suportar em decorrência da crise internacional, afinal o mundo está globalizado.
Sidnei Moura Nehme, Economista.
DIRETOR EXECUTIVO
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