O fluxo cambial de janeiro e a balança comercial emitem sinais de que 2012 efetivamente …

O fluxo cambial de janeiro e a balança comercial emitem sinais de que 2012 efetivamente poderá ser um ano menos auspicioso para o Brasil no que diz respeito à entrada líquida de recursos no país.

Embora o fluxo cambial revele em janeiro um saldo positivo até o dia 27 do montante de US$ 6,501 Bi, sendo US$ 6,292 Bi de origem financeira e US$ 210,0 M de origem comercial, é evidente que está sendo mantido por um inesperado ingresso para a Bovespa, que pode ser pontual, e ingressos de empréstimos captados por empresas e bancos, dada a enorme liquidez presente no mercado internacional, onde o Brasil tem facilidade de captação, tendo em vista que um “status” econômico-financeiro, que o referencia com risco de boa qualidade.

As empresas brasileiras, estima-se, já fecharam captações em torno de US$ 13,0 Bi e ontem, a Petrobrás anunciou captação de US$ 7,0 Bi, prazos variados, tendo havido ofertas totais de US$ 27,0 Bi, o que deixa evidente a expressiva liquidez presente no mercado global buscando rentabilizar-se e sanciona a credibilidade do Brasil.

Contudo, como temos salientado, não sentimos a mesma propensão a emprestar e a propensão a investir, de vez que a crise internacional induz a postergação das decisões de investimentos por envolverem imobilização, sendo a opção de escolha a liquidez de caixa e a aplicação em papéis para rentabilizá-la.

Portanto, a concentração deste acúmulo de captações sugere ser pontual no início do ano, quando as empresas buscam recursos para financiar seus objetivos e projetos, nos parecendo que a curva de ingresso destes recursos, vista em perspectiva, será cadente nos 3 trimestres finais do ano.

Os investimentos em renda variável na BOVESPA, por parte dos estrangeiros, foram muito focadas em determinados papéis, especialmente Petro, que perdeu muito valor de mercado no ano passado, mas que está tendo mudança de comando que sempre enseja expectativas de mudanças nas estratégias, e assim pode ser uma aposta também focando o curto prazo.

Não acreditamos que a BOVESPA tenha uma perspectiva sustentável de retorno aos investidores, até porque as projeções para o PIB brasileiro em 2012 são muito parecidas com a do ano de 2011. Portanto, entendemos haver o risco do refluxo destes investimentos recentes na medida em que forem sendo realizados os lucros decorrentes da alta consolidada de forma rápida.

A balança comercial em janeiro acentua a percepção, já levantada por nós anteriormente, que 2012 será um ano pouco favorável, pois com o mundo diminuindo o ritmo de atividade econômica será inevitável a queda quantitativa e de preços das “commodities” que representam mais da metade, quando não 2/3, das nossas exportações.

Além disto, ainda que tardiamente o governo incentive a exportação de manufaturados, não vemos tempo para viabilizá-las, pois diferentemente das “commodities” que são negociadas em bolsas, os produtos industriais envolvem reconquista de mercados perdidos, e, as perspectivas presentes são de acirramento da competitividade entre Estados Unidos e Europa com a busca da fragilização de suas moedas, sem perder de vista a China, cujo governo já salientou preocupações com queda nas exportações.

O sinal emitido pela balança comercial em janeiro com saldo negativo de US$ 1,29 Bi, é muito importante e não deve ser considerado algo surpreendente, mas está em linha com as perspectivas que temos afirmando desde o final do ano de 2011, ante o quadro tendente à recessão presente nas economias desenvolvidas.

Em termos de fluxo cambial comercial não devemos perder de vista que foram migrados de 2011 para este ano de 2012, restos a receber de exportações de US$ 4,8 Bi e restos a pagar de US$ 19,0 Bi de importações, o que já assegura um impacto negativo líquido de US$ 14,2 Bi para 2012, ao qual se somarão os saldos negativos de balança comercial do ano de 2012. Desta forma, as perspectivas para o fluxo cambial do ponto de vista comercial sinaliza que poderemos ser surpreendidos com performance negativa.

O fluxo cambial financeiro que aparenta intensidade neste início do ano, poderá perder intensidade ao longo do ano, já que ocorre um intenso volume de saídas de dividendos, lucros, juros sobre capitais e antecipações de pagamentos de importações vincendas por requisição das matrizes de empresas multinacionais aqui estabelecidas.

Oportuno lembrar que em 2011 tivemos um intenso fluxo de ingressos financeiros no 1º trimestre no montante líquido de US$ 31,0 Bi e fechamos o ano com um saldo no fluxo de tão somente US$ 21,0 Bi, o que indicou que o fluxo financeiro nos 3 trimestres seguintes foi negativo em US$ 10,0 Bi.

Estes são pontos importantes a considerar, pois num ambiente de fluxo cambial negativo, a formação do preço da moeda americana, que agora está fortemente dependente do fluxo, já que o mercado de derivativos está “travado” por normas e tributos, tenderá a repercutir esta situação.

Em razão disto é que temos uma visão de que a partir do 2º trimestre, senão antes, a curva da taxa cambial tenderá a subir gradualmente e assim continuando ao longo do ano, para finalizá-lo com preço do dólar acima de R$ 2,00 ou pouco mais.

Então, entendemos que ocorre muito euforismo no momento, faltando a necessária moderação que é sugerida pela perspectiva de médio/longo prazo.

A despeito de um dado ou outro menos traumático das economias europeias ou dos Estados Unidos, parece claro que, diferentemente da expressão “solução”, que vem sendo utilizada com frequência, teremos “acomodação” gradual dentro de condições de suporte, pois solução demandará alguns anos, já que o descontrole foi extremamente relevante.

Sidnei Moura Nehme, Economista.
DIRETOR EXECUTIVO
NGO CORRETORA DE CÂMBIO
www.ngo.com.br

No Comment

Comments are closed.