O mercado financeiro chegou a especular sobre a possibilidade do BC ou o MF…

O mercado financeiro chegou a especular sobre a possibilidade do BC ou o MF vir a adotar novas medidas no mercado de câmbio, certamente, com o foco de evitar a deterioração da taxa cambial, partindo do entendimento de que a apreciação do real contraria os objetivos das autoridades.

Entendemos, contudo, que há formas mais explícitas e menos explícitas de agir por parte das autoridades, e, em alguns momentos, deve ser incisivamente ativo, e, em outros, habilmente passivo, provocando efeitos convenientes de forma pontual.

O momento é de fortes ingressos de recursos oriundos de captações externas de empréstimos, favorecidos pela excessiva liquidez em poder das corporações, fundos, etc.…. que, vêm optando por esta postura ante as relevantes incertezas presentes no cenário econômico do mundo global, que não estimulam e nem ensejam investimentos diretos, que envolvem a imobilização dos recursos.

Há dois aspectos que temos destacado. Com um entesouramento de liquidez num montante em torno de US$ 7,6 Trilhões no cenário global pelas corporações, fundos, etc..., os detentores destes recursos procuram rentabilizá-los e o Brasil detém condições referenciais que tornam atraentes os títulos emitidos por empresas, bancos de primeira linha e o próprio governo, para alocação destas disponibilidades.

Este fato está sendo aproveitado pelo Brasil, que assim está captando volumoso montante de recursos, com destaque para o início do ano, com acentuada tendência de ser um movimento pontual e que entrará em linha de declínio.

Contudo, por outro lado, há uma tendência à redução significativa da propensão aos investimentos diretos, não porque o Brasil não seja interessante embora esteja crescendo menos e seu mercado interno já não seja tão pujante quanto o foi em 2008/2009, mas pelo fato das incertezas presentes e persistentes na cena global recomendar a postergação dos investimentos que impliquem em imobilizações. Assim, o Brasil, que acentua a captação de empréstimos superando as expectativas, tende a sofrer uma retração dos IED´s, já que, isto depende de decisões estratégicas dos investidores externos que estão sendo postergadas.

Exportar também encontrará um mercado externo com elevada competitividade entre Estados Unidos, Europa e China, todos querendo vender mais e comprar menos, e isto, neutraliza sobremaneira incremento de nossas exportações. Quanto aos manufaturados praticamente não teremos condições competitivas e nos produtos primários, em especial “commodities”, o cenário externo sugere que poderemos ter reflexos nas demandas físicas e nos preços.

Assim, o Banco Central do Brasil ao verificar que o fluxo se intensifica com ingresso de empréstimos externos, adota a postura de não intervenção ausentando-se do mercado com os seus leilões, levando os bancos à estocagem de divisas, e, como consequência, a apreciarem o real.

Por isso, o real se aprecia e por esta razão é que não consideramos tendência e continuamos vendo a moeda americana em perspectiva com viés de alta.

A não intervenção do BC promove a apreciação do real, sabidamente não sustentável como tendência de médio/longo prazos, mas, certamente, retarda a ocorrência da valorização da moeda americana, o que a faz momentaneamente contributiva para contenção de pressões inflacionárias, e, em perspectiva, reduz seus impactos inflacionários, por retardá-lo no tempo, quando acentuar-se a valorização.

Estivesse a apreciação do real incomodando a autoridade, a primeira medida seria retomar os leilões de compra diários e com isto criaria um piso interferindo na oferta e demanda, já que os fatores especulativos do mercado de derivativos estão neutralizados pelas normas vigentes que envolvem tributação.

Tanto é que as posições mantidas por bancos e “hedge funds” no mercado de dólar futuro e cupom cambial-DDI vêm se mantendo inalteradas, com os bancos “vendidos” em ambas as pontas e os “hedge funds” em posições compensatórias “vendidas” e “compradas”.

Quebrando temporariamente as pressões inflacionárias com o dólar sem exacerbações para pressionar, o governo poderá até criar o ambiente para viabilização de um corte a mais de 0,50%, além do previsto para a próxima reunião do COPOM, conduzindo a SELIC até 9,50%, embora fique a perspectiva de ter, eventualmente, que elevá-la nas proximidades do final do ano.

Esta estratégia faz sentido para o que estamos presenciando neste momento, porém pode provocar que em perspectiva possamos ter movimentos abruptos de alta, na medida em que o fluxo cambial se torne adverso e pressione a taxa cambial.

O cenário global ainda tem a forte prevalência das incertezas, e muito embora esteja se tornando evidente a estratégia do BCE, com a repetência da tática americana de aumento da liquidez combinada com redução de taxa de juro, induzindo apreciação da moeda Euro para aumentar a capacidade competitiva dos produtos da região no mercado externo, e, com isto, reaquecer a atividade econômica, ainda perduram dificuldades em torno da Grécia para o fechamento do acordo com os credores privados, e, ainda faltam consolidar acordos formalmente para que o Euro tenha um processo mais disciplinado por parte dos países integrantes da sua zona.

Estados Unidos sinalizam melhora discreta, mas, certamente, postergará ao máximo qualquer mudança na sua estratégia atual e prática de juro baixo, pois favoreceria a Europa e perderia competitividade.

O Boletim FOCUS que reproduz as medianas das projeções de 100 instituições bancárias, indica que ocorre a percepção de queda da inflação, mantendo a indicação de SELIC a 9,50% ao final do ano e US$ a R$ 1,78, ao mesmo tempo em que mantém os IED´s com projeção de US$ 55,0 Bi, e eleva para saldo de balança comercial de US$ 19,10 Bi para US$ 19,60 Bi, e reduz a projeção para o déficit em transações correntes de US$ 66,45 Bi para US$ 65,90 Bi e também para o crescimento da produção industrial de 3,31% para 2,94%.

Continuamos entendendo que são projeções colocadas como de médio/longo prazo por apontarem comportamentos para o final do ano, mas extremamente pontuais e afinadas com visão de curto prazo, não sendo ainda sensibilizadas pelas perspectivas mais efetivas para o ano, a partir da complexidade do cenário externo.

Sidnei Moura Nehme, Economista.
DIRETOR EXECUTIVO
NGO CORRETORA DE CÂMBIO
www.ngo.com.br

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