O Banco Central do Brasil, segundo notas divulgadas na imprensa, está procedendo a definição de normas introduzindo modificações nos procedimentos cambiais.
O Banco Central do Brasil, segundo notas divulgadas na imprensa, está procedendo a definição de normas introduzindo modificações nos procedimentos cambiais, tais como permitir que garantias de estrangeiros para operações no mercado futuro na BM&F Bovespa possam ser depositadas fora do Brasil; lançamento de títulos da dívida em reais emitidos no exterior para amenizar o fluxo de dólares, etc….. e que tem foco em reter no exterior parte do fluxo que ingressaria no país, sem afetar o rito dos negócios em si.
Consideramos, antes de tudo, que são medidas de aperfeiçoamento do mercado de câmbio brasileiro que ainda têm muitas assimetrias que precisam ser eliminadas e compatibilizadas com os avanços que o país tem conquistado no cenário internacional. Inquestionavelmente, ao “deslocar” os recursos para contas externas evitará o impacto do fluxo no nosso mercado de câmbio, que impõe a atuação do BC retirando dólares através os leilões de compra diários e emissão de títulos para esterilizar os reais que injeta no mercado financeiro em pagamento dos dólares adquiridos, e, com o importante detalhe que não fere a estrutura das operações objetivadas pelos investidores focando o Brasil.
Contudo, consideramos mais importante e extremamente relevante o fato do BC ter confirmado pela 3ª semana seguida que alterou a sua dinâmica de compras do mercado de câmbio com seus leilões diários. Deixou de praticar a intervenção, no nosso entender equivocada, de retirar do mercado volumes acima dos excedentes do fluxo cambial diário e com isto, provocar o estabelecimento de posições “vendidas” pelos bancos, que habilmente as utilizavam para captar linhas externas de custo barato e na ponta captarem reais do BC com um custo agregado a mais do que o custo externo, que é a variação cambial, que, contudo, tornou-se foco de intensa especulação focando a apreciação do real, objetivando converter este custo também em renda.
Tecnicamente esta mudança é muitíssimo importante, pois elimina do mercado de câmbio à vista focos de especulação que vinham deformando a formação do preço da moeda americana, da mesma forma que eliminou os focos de igual efeito no mercado de câmbio futuro na BM&F quando deixou, anteriormente, de oferecer os “swaps cambiais reversos”.
Os bancos que vinham até a semana finda em 9 de outubro com posições “vendidas” no mercado de câmbio à vista de montante próximo a US$ 5,0 Bi, agiram rápido quando houve a percepção de que o governo instituiria o IOF sobre os ingressos de investimentos estrangeiros em renda fixa e variável, valendo da antecipação relevante de fluxo de entrada por parte dos investidores estrangeiros pela mesma razão, e cobriram suas posições a descoberto, protegendo-as e realizando o lucro que poderia ser reduzido pela depreciação pontual “psicológica” do real no momento da entrada em vigor do IOF.
No entanto, os bancos certamente esperavam que o BC continuasse retirando dólares diariamente do mercado de câmbio à vista em volumes superiores ao fluxo, o que lhes permitiria recompor as posições “vendidas” zeradas de forma pontual, e, a evidência maior de que “apostavam” nesta possibilidade foi o fato de terem aumentado suas posições “vendidas” no mercado futuro de dólar, assim entendido cupom cambial-ddi e futuro de dólar especificamente, dando liquidez aos investidores estrangeiros que procuravam “hedge”.
Porém, com o fato do BC ter, a partir da semana iniciada em 13, alterado sua dinâmica restringindo os volumes de suas compras diárias, deixando-os abaixo do fluxo excedente, fazendo com que os bancos passassem a acumular posições “compradas” no mercado à vista, que atingiram US$ 3,189 Bi, ao final de outubro foi um indicativo de que o preço da moeda americana ganharia piso de resistência à queda e que abriria um tendência de recuperação.
A recuperação não ocorre de imediato, embora tenha dado piques altistas em alguns momentos, pois os bancos continuam agindo para represar o preço até que consigam eliminar suas posições “vendidas” no mercado futuro de dólar, pois se assim não o fizerem realizarão perdas. Contudo, os bancos vêm gradualmente reduzindo estas posições “vendidas”, desde o final do mês quando registravam US$ 7,650 Bi para ontem US$ 6,0 Bi, e só não as reduzem mais rapidamente porque o mercado futuro de dólar tem baixa liquidez, cuja causa determinante maior é o baixo preço do dólar.
Por isso, ousamos em afirmar que, em perspectiva, é mais razoável projetar o preço da moeda americana mais próxima do entorno de R$ 1,80 do que R$ 1,70.
Medidas como o IOF ou mesmo como as em estudo pelo BC provocam contração do fluxo cambial, mas como o BC esteriliza boa parte do fluxo cambial, agora sem cometer o equívoco de ir além do excedente, o fato tecnicamente mais eficaz é a mudança de comportamento da autoridade monetária nos leilões, pois o fato de ser fluxo menor implica em que terá menor necessidade de comprar nos seus leilões de compra e assim as reservas cambiais brasileiras crescerão mais lentamente, a partir das compras locais.
É importante atentar para o fato de que o país atravessa um momento de bonança e isto implica na não existência de restrições creditícias externas para o país e suas instituições financeiras públicas e privadas. Assim, a idéia de que se tornarmos escassa a oferta o preço sobe, que é o que ensina os princípios econômicos, não ocorre nas circunstâncias atuais e se utilizarmos instrumentos de forma errática acreditando nisto, como retirar do mercado volumes acima do excedente do fluxo, como vinha fazendo o BC e era postulado por inúmeros analistas e acadêmicos, as instituições financeiras complementam suas necessidades com a utilização de linhas externas, fartas pelo país estar na bonança, e a partir daí criam-se focos especulativos que provocam exatamente o efeito contrário, ou seja, mais apreciação do real.
Sidnei Moura Nehme
Diretor Executivo, Economista
NGO CORRETORA DE CÂMBIO
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