Os dados divulgados pelo Banco Central do Brasil, ontem, relativos ao fluxo cambial do mês até o dia 23, revelam, ao examinar-se as últimas duas semanas, que a autoridade monetária reformulou a sua dinâmica de atuação.
Os dados divulgados pelo Banco Central do Brasil, ontem, relativos ao fluxo cambial do mês até o dia 23, revelam, ao examinar-se as últimas duas semanas, que a autoridade monetária reformulou a sua dinâmica de atuação com os leilões de compra diários no mercado de câmbio, e, desta forma corrigiu a dinâmica equivocada que vinha praticando e que tinha como resultante a fomentação de posições “vendidas” por parte dos bancos que passavam a ser o epicentro da força que conduzia o real à apreciação frente ao dólar.
Os fundamentos da estratégia, custos para o BC captando reais para adquirir dólares, custos para os bancos com utilização de linhas de crédito externo para obter dólares e trocá-los por reais, envolvimento da variação cambial como custo para os bancos e fator da atuação dos mesmos pró-apreciação do real para maximização de ganho, ao mesmo tempo em que mantém as posições vendidas em dólares sem proteção de “hedge”, etc. tem sido abordados com freqüência quase cotidiana em nossos comentários.
O fato novo é que os dados divulgados pelo BC que manteve na semana passada atuação retirando dólares do mercado em volume inferior ao excedente do fluxo cambial, e, isto tem elevada importância na formação do preço da moeda americana no nosso mercado de câmbio à vista, pois altera em muito a dinâmica mantida até a semana finda em 9, quando retirava do mercado de câmbio à vista volumes acima do excedente do fluxo cambial e com esta conduta estimulava a formação de posições “vendidas” pelos bancos e a partir daí originava-se o foco especulativo da apreciação do real.
Mantendo a autoridade monetária esta nova conduta operacional nas suas intervenções no mercado de câmbio à vista com os leilões de compra, certamente estará desestimulando a ação dos bancos focando a apreciação do real, e, gradativamente o preço da moeda americana atingirá o seu preço de equilíbrio, que consideramos entre R$ 1,80 a R$ 1,85.
A recuperação do preço do dólar ensejará que os exportadores, que detém hoje algo em torno de US$ 15,0 Bi mantidos no exterior de exportações realizadas sem câmbio contratado, ofertem dólares ao mercado e assim acabam por limitar a apreciação do dólar pelo aumento da oferta.
Será muito importante para o mercado a postura do BC revelamatuando somente sobre os excedentes e até retirando um pouco menos, para que mantenha a formação do preço da moeda protegida da intensidade do fluxo cambial. Claro está que a apreciação do real nunca decorreu da intensidade do fluxo, mas sim do fato do BC ter atuado retirando volumes acima do fluxo do mercado à vista.
Hoje e amanhã o mercado de câmbio à vista deverá ter volatilidade no preço da moeda americana que fechou ontem em R$ 1,7550, pois amanhã será fixada a Ptax taxa de ajuste de contratos os mais diversos, mas especialmente no ambiente da BM&F onde os bancos detém um posição total vendida, data base 27, de US$ 8,6 Bi e os “hedge funds” estrangeiros detêm posição total comprada, data base 27, de US$ 6,2 Bi. Como os bancos estão comprados no mercado à vista, as forças que se opõem na disputa da Ptax está bastante equilibradas, e naturalmente os bancos vão buscar atuar neutralizando a apreciação imediata do dólar.
No cenário nacional, o COPOM divulgou a Ata da sua reunião da semana passada, quando manteve a taxa SELIC em 8,75%. O texto revela situação de conforto das autoridades em relação à taxa atual, reafirmando benignas as influências externas e considerando adequada para o ambiente inflacionário interno. Nossa leitura é de que não se deve esperar mais redução na taxa SELIC, mas são crescentes as perspectivas de que o governo possa estar objetivando manter esta taxa, se possível, até o término do governo Lula, pois há espaço razoável de capacidade ociosa para a indústria crescer e o hiato do produto pode vir a ocorrer um pouco mais adiante do que se está projetando, mesmo com o país crescendo a um ritmo de 4,5% a 5,0%.
No cenário externo foi anunciado o PIB do 3º trimestre do ano com uma alta de 3,5%, acima das projeções em torno de 3,2%. Este dado terá uma reconfirmação em 24/11 após revisão da consistência e embora positivo e animador para o mercado não se deve perder de vista que os dados antecedentes eram muito frágeis e houve fortes programas de estímulos governamentais focando consumo de automóveis e compra de casas.
De toda forma, é um dado positivo num cenário que tem revelado dados desapontadores e que colocam em questionamento a efetiva tendência de recuperação da economia americana, cuja sociedade parece muito deprimida como revelam os indicadores de confiança e que vêm sendo afetados pelos elevados índices de desemprego.
Sidnei Moura Nehme
Diretor Executivo, Economista
NGO CORRETORA DE CÂMBIO
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