A Ata do COPOM fortalece a percepção de que a redução da taxa SELIC de 9,25% para 8,75% possa ter sido a última do ano, pois a despeito do corte de 0,50% ter sido unânime salienta:
“Apesar de alguns membros do Comitê entenderem que haveria respaldo para a possibilidade de manter inalterada a taxa básica de juros já nesta reunião, houve consenso de que o balanço dos riscos para a trajetória prospectiva central da inflação ainda justificaria estímulo monetário residual”; e mais, “O COPOM considera, também, que uma postura mais cautelosa contribuirá para mitigar o risco de reversões abruptas da política monetária no futuro”. O COPOM deixou evidente que está percebendo algum aquecimento maior na inflação que a aproxima da meta.
Contudo, indicadores inflacionários posteriores à reunião do COPOM, como o IPCA-15 que desacelerou para 0,22% em julho após ter registrado 0,38% em junho e o IGP-M, divulgado hoje pela FGV, com a quinta deflação e acelerando-se ao registrar 0,43%, maior do que a deflação de 0,33% apurada em junho, com o IPA caindo 0,85% ante queda de 0,45% em junho e o IPC subindo para 0,34% após alta de 0,17% em junho, repercutindo a alta no grupo Alimentação pontual nesta fase do ano devido problemas climáticos.
O consenso predominante no mercado financeiro era de que esta teria sido a última redução do ano, assim não há nada na Ata que surpreenda, a não ser o fato de que houve a possibilidade de não cortar a taxa, o que reforça a convicção de que não ocorrerá nova redução neste ano.
Todavia, a condução da política monetária é dinâmica e certamente se a curva da inflação revelar tendência de queda, não se pode descartar a possibilidade do COPOM vir a reduzir a taxa SELIC ainda este ano, caso a atividade econômica não evidencie forte aquecimento.
Contudo, não há consenso entre analistas sobre as projeções das taxas longas no mercado de juro, que sugerem uma retomada das elevações da SELIC no final do ano de 2010, já que divergem quanto às perspectivas inflacionárias, porém é notório o aumento da preocupação generalizada no mercado financeiro em relação à má qualidade dos gastos do governo durante a crise não focados na política contracíclica, mas em aumento das despesas com custeio da máquina governamental, que são permanentes, absolutamente na mão contrária do que se viu em todos os países do mundo, e isto tende a afetar também as taxas longas.
Embora haja ainda espaço para arbitragens com este parâmetro de taxa de juro, a partir de operações de “carry trade”, não temos percebido incremento nesta linha, e nem nas arbitragens fortemente especulativas que são aquelas que não implicam em ingresso de recursos efetivos, que o mercado nomeia como com “dólares sintéticos” já que não há ingressos, e que são extremamente danosas à formação do preço da moeda americana, pois provocam forte apreciação do real.
Ontem, o BC divulgou o fluxo cambial até o dia 24 e pelos números, que tivemos oportunidade de comentar e expor em matéria à parte ontem, se constata que o fluxo cambial líquido está negativo em US$ 415,0 MM, considerando-se o fluxo cambial bruto positivo de US$ 491,0 MM menos as compras do BC, via leilões, de US$ 906,0 MM, não havendo razão, portanto, para atribuir-se ao fluxo a causa da apreciação do real.
No mercado futuro de dólar (cupom cambial-DDI e futuro de dólar), os bancos estão liquidamente vendidos em US$ 4,1 Bi e os estrangeiros na mesma direção em US$ 400,0 MM, e assim será normal que o preço da moeda americana no mercado à vista, depois de recuperação nos últimos 2 dias, seja pressionado a apreciar o real, o que explica o fato de ter fechado ontem a R$ 1,9040 e hoje já ter aberto a R$ 1,88, pois a rigor os posicionamentos sugerem pressão para baixo, pelo menos hoje e amanhã, tendo contra esta tendência somente o fluxo, se for negativo.
Portanto, hoje e amanhã a taxa de câmbio deverá apresentar volatilidade e um viés de baixa.
Entretanto, continuamos não trabalhando com projeções de excessiva apreciação do real, entendendo que o preço da moeda americana tende à recuperação na medida em que sejam reduzidas as posições no mercado futuro, que não tinham originalmente caráter especulativo, mas que acabaram por assumir postura defensiva e indutora à apreciação do real visto que a liquidez deste mercado ficou muito estreita, e, o BC, corretamente, deixou de gerar liquidez com “swaps cambiais reversos” visando conter a queda. Este é um problema para o qual a autoridade monetária não tem instrumentos para interferir, por isso, deve ausentar-se temporariamente do mercado e deixar que o próprio mercado flutuante resolva, já que sabidamente não é o fluxo a causa.
Neste momento, claramente a apreciação do real não decorre do fluxo cambial como tem sido largamente apregoado sustentando-se esta tese mais no “sentimento” e menos nos números efetivos que os evidencia, mas mesmo que em perspectiva o fluxo cambial possa acentuar-se, acreditamos que o BC continuará esterilizando todos os excedentes visando elevar as reservas cambiais do país, que a despeito do elevado custo de carregamento é conveniente para o país neste cenário de crise internacional. Acreditamos que o BC tenda a elevar as reservas cambiais até 25% acima do montante da dívida externa do país, o que representaria algo entre US$ 240,0 a US$ 250,0 Bi.
Notícias no cenário internacional reanimam os mercados financeiros. Nos Estados Unidos as perspectivas favoráveis sinalizadas pelo relatório, Livro Bege, emitido pelo FED sobre o comportamento da economia americana, aliviam as preocupações decorrentes da queda do indicador de confiança dos consumidores que recuou de 49,3 para 46,6 pontos e da queda das encomendas de bens duráveis de 2,5% em junho, muito acima da projeção de queda de 0,5%. Analistas também veem motivos para confiar na melhora do setor imobiliário, e o Presidente Obama faz pronunciamentos salientando as perspectivas melhores. Enfim, há uma corrente positiva buscando reanimar o cenário econômico americano, e isto repercute nas bolsas que voltam a operar em alta enquanto os “treasuries” estão em queda e abrindo suas curvas de juros “yeld”, com o papel de 10 anos apontando rentabilidade de 3,706%.
O número de pedidos de seguro desemprego na semana finda em 25 aumentou para 584 mil após ter registrado 559 mil na semana antecedente e ficou um pouco acima da projeção.
A despeito do esforço pelo otimismo, não se pode descartar volatilidade em perspectiva, pois a economia americana, certamente, terá ainda um percurso para recuperar-se maior do que os anseios.
Na China foram afastadas as preocupações com restrições na área creditícia, fortalecendo-se a convicção de que continuará o suporte ao forte crescimento econômico e a expansão do crédito sustentável e o People´s Bank of China informou que manterá a política monetária expansionista para consolidar a recuperação. Reação imediata, as “commodities” passaram a ser operadas em alta.
Na eurozona a confiança econômica atingiu o maior nível em 8 meses, com dados sinalizando recuperação, elevando o índice em julho para 76 pontos após 73,2 pontos em junho.
No Japão a produção industrial subiu pelo 4º mês seguido, tendo atingido alta de 2,4% em junho comparado em maio.
O petróleo está sendo cotado a US$ 64,63 o barril na Nymex, em alta. O Euro vale US$ 1,4063. A Libra US$ 1,6511 e Yens 95,61 valem US$ 1,00.
Sidnei Moura Nehme
Diretor Executivo, Economista
NGO CORRETORA DE CÂMBIO
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