A análise fundamentalista da formação do preço da moeda americana no nosso mercado de câmbio neste mês de maio…
A análise fundamentalista da formação do preço da moeda americana no nosso mercado de câmbio neste mês de maio que se finda não sanciona a apreciação do real que decorra integral e principalmente do fluxo cambial positivo que vem sendo verificado, apontando como causa principal e fundamental a ocorrência pontual de vencimento na virada do mês de instrumentos financeiros operacionalizados pelo BC no mercado futuro de dólar neste mês de maio.
O fluxo cambial positivo, ao qual de uma forma disseminada vem se atribuindo o fator causal da apreciação do real ao longo do mês, embora presente não teve dimensão líquida capaz de impor queda tão significativa no preço do dólar.
Até o dia 22, o fluxo cambial positivo registrava US$ 3,086 Bi, dos quais US$ 1,4 Bi de superávit comercial e US$ 1,6 Bi de superávit financeiro. Este é o montante de dólares líquidos excedentes que efetivamente poderiam impactar na formação do preço da moeda americana, porém é importantíssimo observar que o BC retirou deste montante o equivalente a 80% ao comprar, via leilões, US$ 2,4 Bi. Desta forma, o montante de dólares líquidos que permaneceram no mercado, especificamente nas posições dos bancos, foi de algo pouco acima de US$ 600,0 MM, muito pouco para a dimensão da apreciação ocorrida.
O fator determinante maior que se identifica quando se analisa com base nos fundamentos recai sobre a posição de instrumentos financeiros, os “swaps cambiais reversos”, colocados pelo BC no mercado de dólar futuro no ultimo dia 5 com o magnânimo montante de US$. 3,4 Bi vincenda na virada de maio para junho.
Este tipo de operação, em tese, tem o objetivo de interferência do BC com um efeito compra no mercado futuro de dólar visando dar suporte ao preço da moeda, embora a autoridade não tenha assumido este fato e alegado que o fez para liquidar antecipadamente posição idêntica inversa vincenda na mesma data, o que tecnicamente nos fez considerar impontual se este foi o motivo efetivo, visto que a moeda tinha um viés de baixa e tranqüilamente liquidaria a posição vincenda em condições mais favoráveis na coincidência dos vencimentos.
O problema surge na estrutura de remuneração destas operações, sendo que as tesourarias dos bancos assumem posição vendedora de dólares ficando beneficiários do juro e o BC assume posição compradora ficando com o benefício da variação cambial positiva. Este é o ponto, as tesourarias dos bancos e outros “players” que ficaram na posição vendedora passam a operar fortemente para que a variação cambial torne-se a mais possível negativa, ou seja, para que ocorra a maior apreciação do real.
Como aquela operação de “swap cambial reverso” foi colocada num ambiente de dólar no entorno de R$ 2,14, conduzindo a taxa cambial a menos de R$ 2,00 na virada do mês, quando ocorre o vencimento, não ocorrerá variação positiva na transação, mas sim variação substantivamente negativa contra o BC e assim, os “vendedores” serão beneficiários do juro e da expressiva variação cambial negativa.
Não há como desconsiderar que o fluxo ou até o ambiente positivo no entorno acabariam por conduzir o preço da moeda americana para R$ 2,10 ou pouco menos, onde parece estar o ponto de equilíbrio, e o BC, com a manutenção de seus leilões de compra diários esterilizando os excedentes, atingiria duplo objetivo, quais sejam, aumentar as reservas cambiais em linha com a recomendação ajustada entre todos os bancos centrais e conseguiria dar suporte ao preço, embora relute em admitir este fato por razões óbvias, visto que o mercado de câmbio no Brasil é flutuante e não seria razoável a autoridade admitir a interferência.
Hoje o dólar chega ao preço abaixo de R$ 2,00, fato que havíamos preconizado ao início do mês não como “achismos” e nem atribuindo ao fluxo, mas apontando desde então a causa e o momento em que este fato deveria ocorrer, já que a análise fundamentalista apontava para esta obviedade de forma incontestável.
Por isso, temos salientado enfaticamente que o BC não deve utilizar os instrumentos financeiros no mercado futuro de dólar, já que sabidamente e com histórico amplamente conhecido no mercado de câmbio brasileiro, sempre que os utiliza em ambiente de não pânico/crise de confiança em relação ao país, os efeitos são contrários e acabam por originar movimentos especulativos inconvenientes para a formação da taxa cambial.
Para este tipo de especulação detonada a partir dos instrumentos financeiros do BC no mercado futuro de dólar não há leilão de compra que consiga impedir e muito menos a implantação de medidas tributárias como o IOF.
Em razão disto, consideramos prematura a implantação do IOF sobre os ingressos de investimentos externos direcionados para renda fixa, pois ainda não houve um fluxo de dimensão que justifique a medida. Em maio, até o dia 22, havia sido direcionado para renda fixa o montante de investimentos externos de US$ 811,0 MM e para a BOVESPA US$ 2,350 Bi.
Importante no nosso entender seria um corte na SELIC mais contundente na reunião do próximo dia 10, reduzindo-a num corte só a 9,0%, que por si só já provocaria uma retração no fluxo direcionado à renda fixa, incentivaria a economia interna e traria enorme benefício para o superávit fiscal do país ao reduzir as despesas de custeio da DP.
Assim, também fecharia um pouco a “janela” para as arbitragens desprovidas de fluxo cambial, com os “dólares sintéticos”, que tem forte poder de impacto na formação do preço da moeda americana.
Pelo consenso que temos de que a apreciação do real não decorre principalmente do fluxo cambial é que consideramos inviável que o preço abaixo de R$ 2,00 seja sustentável após a ocorrência pontual da liquidação de “swap cambial reverso” de US$ 3,4 Bi na virada deste mês.
O fluxo cambial poderá ser neutralizado pelo BC com seus leilões diários no mercado de câmbio à vista esterilizando os excedentes, operação de custo financeiro elevado, mas necessário neste momento, sendo recomendável mesmo que a autoridade eleve as reservas cambiais até um ponto que supere em 20% ou 25% o passivo externo do país, o que poderá estimular efetivamente as agências de “rating” a elevarem a graduação do país.
Sidnei Moura Nehme
Diretor Executivo, Economista
NGO CORRETORA DE CÂMBIO

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