Após um longo período em que houve relutância em atribuir a expressiva apreciação do dólar ao movimento especulativo instalado…
Após um longo período em que houve relutância em atribuir a expressiva apreciação do dólar ao movimento especulativo instalado, em especial, no mercado futuro de dólar da BM&F, como ficou evidenciado nos movimentos de desmonte recente, visto que o mercado futuro de cupom cambial – DDI praticamente vem mostrando que as posições dos “players” se mantêm inalteradas, ocorre forte convergência das projeções já atribuindo preço de R$ 2,00 para a moeda americana ao final do ano, bastante distante da contida no Boletim FOCUS que é de R$ 2,25.
Este final do mês, a rolagem parcial pelo BC de US$ 2,0 Bi da posição de “swaps” de US$ 5,7 Bi vincenda no próximo dia 4 de maio, acabou por fulminar as resistências que já eram absolutamente residuais em posição “compradas” detidas pelos investidores estrangeiros, mas que perturbavam a tendência latente de apreciação do real, causando volatilidade estreita, mas muito presente, e que se mantinha na expectativa de que a demanda reprimida de “hedge” pudesse vir a aceitar um preço acima de R$ 2,20, o que foi rompido pela estratégia do BC.
Ontem e não antes, finalmente, os investidores estrangeiros alteraram seus posicionamentos no mercado futuro de dólar, revertendo os saldos comprados líquidos de 13.309 contratos para vendidos líquidos de 979 contratos.
Agora, ainda terão oportunidade de aumentar estas posições vendidas no próximo dia 4 quando o BC procederá a liquidação da parte não rolada da posição vincenda, algo como US$ 3,7 Bi, que tem um efeito “compra” no mercado futuro de dólar, mas já com a existência de uma pressão menor de demanda compradora de “hedge”, o que aumenta o risco de ganho com a especulação, mas que certamente não será fator para neutralizá-la totalmente, já que agora, com os investidores estrangeiros vendidos, a convicção de apreciação do real fica fortalecida.
Naturalmente, a especulação, desenvolvida a partir de setembro do ano passado, provocando forte movimento reversivo do movimento especulativo que apostava no real para nova aposta no dólar, determinou expressivo percentual de valorização da moeda americana, visto que saiu de um preço exacerbado para baixo para um novo preço exacerbado para cima, tinha muito de causas “psicológicas” oportunísticas exploradas pelos especuladores num momento de agravamento da crise internacional, mas que não encontrava fundamentos concretos no cenário brasileiro, que foram em grande parte ignorados.
O Brasil sempre teve reservas cambiais ao longo desta crise, reservas cambiais suficientes para liquidar a totalidade do seu passivo externo público e privado, e este é um escudo que, no caso do preço do dólar no mercado interno, foi subestimado, ainda porque o BC mostrou-se extremamente ágil em reverter de forma pontual estas reservas cambiais como linhas de financiamento em moeda estrangeira substitutivas das linhas retiradas pelas fontes internacionais e vendeu dólares à vista sempre que observou desequilíbrios entre a oferta e demanda no mercado à vista.
Errou sim, errou ao vender “swaps” no mercado futuro de dólar tentando gerar liquidez num ambiente de forte especulação, não conseguindo atender a demanda dos posicionados “vendidos” surpreendidos pela instalação rápida do movimento especulativo no sentido oposto, e assim com estimulou o movimento especulativo e a formação crescente de posições “compradas” pelos investidores estrangeiros, enfim acabou estimulando a elevação do preço da moeda americana, efeito diverso do objetivado. Tardiamente atentou para o erro e cessou as ofertas de “swaps” naquele mercado e como conseqüência o deixou sem liquidez, mas resistente à queda, visto que o mercado à vista tinha volume de negócios muito baixo, quadro que agora se encerra pela percepção gradual dos especuladores da absoluta inviabilidade de sustentarem “suas apostas”, pois o quadro cambial do país acabou por fragilizar totalmente o movimento.
O 1º trimestre deste ano “corrigiu” as severas projeções que foram realizadas extrapolando as perspectivas negativas para o comércio exterior, fluxo de investimentos, etc. sem usar o mesmo peso para a queda das importações, queda da remessa de lucros e dividendos, queda dos gastos com viagens internacionais. Saldo surpreendente da balança comercial no trimestre superior ao mesmo período de 2008 e abril com desempenho positivo fortíssimo; fluxo de investimentos para a Bovespa sinalizando retorno dos investidores com perspectivas crescentes; fluxo cambial não preocupante visto que o negativo decorreu de liquidação de empréstimos e linhas de financiamentos externos, que em contrapartida reduziram o passivo externo do país, que em março totalizada US$ 192,0 Bi ante as quase imutáveis reservas cambiais de US$ 202,0 Bi.
Na próxima segunda feira, dia 4, o BC liquidará a posição residual provocando um efeito “compra” e isto dá uma certa resistência temporária ao preço ao início dos negócios hoje, pois os investidores que desejam aumentar suas posições vendidas no mercado futuro de dólar, naturalmente, desejam fazê-lo no melhor preço, porém como teremos um final de semana longo e o mercado à vista sinaliza que terá volume expressivo, a taxa perderá a resistência e seguirá em queda, visto que o mercado futuro de dólar hoje deve ter baixo volume e ficará à mercê do preço formado no mercado à vista.
Caso se acentue a tendência de apreciação do real nos próximos dias, o BC não deve cometer o erro do passado quando isto ocorreu intervindo no mercado futuro de dólar se estiver presente movimento especulativo, pois acaba por causar a intensificação do mesmo. O BC deve limitar a sua intervenção ao mercado de cambio à vista, onde há a efetiva sinalização do que ocorre em termos reais, comprando os excedentes e suprindo as faltas. Neste momento não há nenhuma razão para movimentos mais acentuados no mercado futuro de dólar que não sejam limitados a “hedge” verdadeiro, tudo o mais será especulação e não cabe ação por parte da autoridade neste caso, e a sua ausência é mais eficaz para conter do que a sua interferência.
A BOVESPA repercute o cenário favorável e mantém a alta, já que a perspectiva de continuidade de ingresso de investimentos direcionados para o mercado acionário é consistente.
O COPOM decidiu ontem dentro do consenso do mercado financeiro e assim reduziu a SELIC em 1,0% passando-a a 10,25% AA., porém desagradando o setor produtivo da economia que deveria ser o foco principal neste momento e está carente de estímulos para retomar ritmo e recuperar empregos e renda, que é fundamental para o país, visto que o nosso PIB tem acentuada dependência do nosso mercado interno.
Antever “fantasmas” não é a melhor decisão neste momento, que requer realismo e sugere que se erre pelo excesso de estímulo à economia, corrigindo posteriormente se necessário, mas definindo de forma objetiva quais as prioridades imediatas. Cortar já 1,5% e até não cortar nada na próxima reunião teria sido mais emergencial e pontual no momento.
Modelos econométricos acabaram de ser destruídos pelo mercado financeiro internacional nesta crise, e todos os países fizeram a opção pela recuperação de suas economias, com a certeza de que a inflação será dominada pela própria perda inevitável de atividade econômica.
Surge agora uma contribuição adicional para “exterminar” os riscos inflacionários e cujos efeitos são de curtíssimo prazo: a taxa cambial. Esta é o antídoto mais eficaz e rápido e nem seria necessária neste momento de forma tão acentuada como se pressupõe que será o recuo da taxa cambial, que pode comprometer a dinâmica das nossas exportações que vem superando as importações e gerando excelentes superávits. Este foi um detalhe que parece não mereceu muita atenção pelo COPOM.
Em contextos com o atual percebe-se que o Brasil tem dificuldades em admitir que pode ser grande, há muitos temores, mesmo considerando que o país instalou uma capacidade produtiva que está com capacidade ociosa e que o desemprego elevou-se a nível preocupante, razão pela qual não há porque se falar em possível hiato do produto em caso de retomada da atividade econômica.
O Brasil já não lidera mundialmente o “ranking” de maior juro real, porém tem a sua frente a China, cujo mercado não tem a liquidez brasileira e nem regras tão claras, e, a Hungria que já esta sob a tutela do FMI. Assim, o Brasil deverá continuar sendo o “oásis” principal para o fluxo do “carry trade”.
Caso o país venha a ser reclassificado para melhor no seu “investment grade” melhoraria o ambiente para atração de investimentos, mas será fundamental que a sua economia esteja em recuperação e o foco do COPOM foi na inflação e não na atividade econômica.
Esta decisão vem em oposição ao dado captado pela FGV com o seu ICI (Índice de Confiança da Indústria) que cresceu 8,7% em abril, ao passar de 77,8 para 84,6 pontos. Esta é a 4ª elevação consecutiva do índice consolidando a tendência de recuperação gradual da confiança, após diminuição acentuada no 4º trimestre de 2008.
O governo divulgou hoje um surpreendente superávit primário em março de R$ 11,6 Bi superior às projeções de R$ 9,3 Bi e maior desde outubro de 2008 e 4 vezes o obtido em fevereiro. No 1º trimestre acumula superávit de R$ 21,0 Bi, metade do obtido no mesmo período do ano passado. O déficit nominal em março foi de R$ 2,5 Bi menor do que os R$ 6,1 Bi apurado em fevereiro. A relação DP/PIB elevou-se para 37,6%, maior desde setembro do ano passado, após ter registrado 37,1% em fevereiro.
No exterior as bolsas operam em alta, desde a Ásia, Europa e Estados Unidos.
Nos Estados Unidos, onde o FED ontem decidiu manter a taxa de juro básica entre zero e 0,5%, foi divulgado o PCE (Personal Consumption Expenditures) apontando a 3ª alta após meses de variação nula, com o núcleo apontando alta de 0,2% em março idêntica a de fevereiro. A renda dos norte-americanos caiu 0,3% ante projeção de queda de 0,2% e após ter registrado queda de 0,2% em fevereiro. O consumo caiu 0,2% em março acima da expectativa do mercado que era de recuo de 0,1%, contrariando o resultado de fevereiro que foi de alta de 0,4%.
Também foi anunciado que os pedidos de auxilio-desemprego na última semana ficaram abaixo do esperado atingindo 631mil ante estimativas de 640 mil e abaixo da medição passada revisada de 645 mil.
Os “treasuries” de 10 anos apontam rendimento de 3,096% AA. O petróleo está sendo cotado a US$ 51,66 o barril na Nymex. O Euro vale US$ 1,3277. A Libra US$ 1,4861 e Yens 98,12 valem US$ 1,00.
Sidnei Moura Nehme
Diretor Executivo, Economista
NGO ASSOCIADOS CORRETORA DE CÂMBIO LTDA.
www.ngo.com.br

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