A rigor, o contexto da crise global não evoluiu para solução, mas…
A rigor, o contexto da crise global não evoluiu para solução, mas, cada qual, países ou regiões, procuram redefinir suas estratégias para conviver com este cenário sem melhoras, estabelecendo dinâmicas próprias focadas nos seus interesses diretos, buscando assim viabilizar perspectivas que possam amenizar os impactos negativos e criar atalhos para reativar suas economias.
Vimos, num passado recente, os Estados Unidos reduzirem o juro a parâmetro extremamente baixo e, em concomitância, acentuar a liquidez. Criou otimismos e impulsionou movimentos especulativos em inúmeros segmentos, desvalorizou o dólar tornando seus produtos mais competitivos no mercado externo, mas foi incapaz de fazer com que os recursos injetados fluíssem para a economia americana reabilitando-a e capaz de gerar renda e empregos. Repetiu-se com o “QE2” e acabou sendo mais do mesmo. Por fim, o que ocorreu foi a transferência da crise bancária para a dívidasoberana do país, elevando em muito o endividamento.
Na Europa, onde se discute muito e se resolve pouco e lentamente, o BCE, por fim e sem um apoio claro do Bundesbank alemão, resolveu repetir a tática americana, promoveu leilões de liquidez, comprou títulos dos países integrantes da eurozona extremamente fragilizados, viabilizou a rolagem dos títulos soberanos deste país atenuando a expressiva elevação do juro, combinando com corte no juro, reduzindo-o a 1% aa., criando a perspectiva de fragilização do euro ante o dólar, o que potenciaria a competitividade dos produtos da região no mercado externo.
Este fato começou a provocar um movimento ostensivo de especulação nos mercados futuros de moeda, promovendo a venda de euros contra dólares e moedas de países emergentes.
Os Estados Unidos, num “contra-ataque” do FED, anunciaram a extensão da manutenção do juro entre zero e 0,25% até 2014, e sinalizou que tem um “QE3” sobre a mesa para ser implementado, pois percebeu os movimentos do BCE e suas consequências.
Com isto, fragilizou em perspectiva o dólar ante o euro, buscando manter a competitividade de seus produtos no mercado externo.
Nova rodada está prevista, novo leilão de liquidez de dimensões idênticas ao anterior, em torno de Euros 500,0 Bi, provavelmente com novo corte do juro, possivelmente a 0,75% ou quem sabe, a ousado 0,50%.
Naturalmente, este deve ser o sinal para os Estados Unidos anunciarem o “QE3”, como reação, até porque o crescimento do PIB americano no 4º trimestre de 2,8% em 2011, abaixo da expectativa de 3,0%, dá força ao Presidente do FED ante os discordantes.
Briga de gigantes da economia mundial, sugere volatilidade e riscos acentuados aos especuladores.
No Brasil, o otimismo das projeções para o ano chamou a atenção por estarem fora do ponto, e isto ficou mais evidente quando ocorreu a percepção de que a queda de atividade no 2º semestre foi maior do que o esperado.
O BC estava alinhado com projeções otimistas, mas em intensidade menor do que eram propagadas pelo Ministério da Fazenda e a própria Presidenta Dilma, mas as sinalizações advindas do 2º semestre de 2011 passaram a preocupar e colocar em risco o crescimento do PIB 2012, a arrecadação, o superávit primário de 3,1%, geração de emprego e renda.
Nesta mais recente reunião do COPOM, parece que ocorreu o consenso de que é preciso focar mais o cenário interno, a exemplo do que ocorre por parte dos Estados Unidos e Europa e, à margem,conviver com a crise que é séria e não nos deixará incólumes a reflexos negativos.
Parece que cresceu a percepção de que não basta o fato de estarmos medianamente controlados na política fiscal, etc., para esperarmos fluxos de investimentos diretos, e, também para renda fixa e variável.
Há clareza que os investidores potenciais tendem a preservar a liquidez, buscando rentabilizá-la sem imobilização, dado o ambiente externo ter muitas incertezas, e, também pelo fato de não encontrarem atrativos no Brasil como perspectiva imediata de crescimento do PIB, etc.
Então, o Brasil, conjuntamente BC e propósitos declarados de governo, deixa evidente que irá implementar dinâmicas ousadas para não decepcionar, buscando estimular seu crescimento e atingir suas projeções, a ponto de tornar-se efetivamente atraente aos investidores, resgatando as perspectivas que estavam em risco.
No câmbio, o BC opera com a não intervenção, e o faz com extremo acerto.
Estando o Brasil em condições de captar empréstimos externos com grande facilidade, face àelevada liquidez presente no mercado global e seus referenciais de baixo risco, ocorre um forte movimento de captação por parte de empresas, bancos e o próprio governo, o que gera um forte fluxo cambial neste início do ano.
Diferentemente do passado, o BC não intervém no mercado de câmbio, deixando que o fluxo aprecie o real, levando os bancos a elevarem seus estoques de moeda à vista, e os levando a gerar liquidez no mercado futuro de dólar. Com esta atitude, deixa o mercado cumprir o seu papel, que lhe interessa neste momento, e com a oferta presente, faz com que as taxas do cupom cambial não sejam tão atraentes para arbitragens, que fomentam o ingresso de “carry trade”, que é um fluxo não desejável pelo país.
No passado, o BC comprava todo o excedente e além dele, secando a liquidez do mercado, deixando os bancos vendidos em suas posições, e assim a taxa do cupom cambial ficava atraente para arbitragens, que eram a causa efetiva da apreciação do real.
A apreciação do real, que vem merecendo “críticas” por parte do Ministro Mantega que, contudo,sabe bem o que causa, mas tem que manter a linha de defesa da indústria nacional, é conveniente para o país neste momento, pois funciona de forma mais rápida do que o juro como antídoto inflacionário, abrindo espaço para que o COPOM/BC reduza a taxa SELIC de forma agressiva como agora parece ser consensual em todas as áreas do governo, nas próximas reuniões.
O mercado de juro sinaliza 9,75% no primeiro momento, mas é bem possível que, se a estratégia articulada conseguir viabilização, com a crise externa contribuindo adicionalmente para o arrefecimento das pressões inflacionárias, que chegue a ousados 9,0%.
Com taxa de juro mais baixa, diminui a atratividade para as arbitragens especulativas, e tende a criar perspectiva que o PIB possa crescer um pouco além dos 3%, projeção de rigor atual, e então, reacender o interesse dos IED´s, que tendem a ser postergados em parcela substantiva se o cenário prospectivo não sofrer mudanças.
Com a retração da taxa cambial pelo menos no 1º trimestre ou pouco mais, a princípio imprevista,pois fora do contexto da estratégia do governo no primeiro momento, e melhora na perspectiva dos IED´s, desde que se evidencie possibilidade de crescimento maior do PIB, embora com piora nas perspectivas de balança comercial, já que estimulará mais as importações e menos as exportações, pode atenuar a alavancagem da taxa cambial, quando o fluxo cambial se evidenciar menos favorável, evitando que se exacerbe até R$ 2,20, mas, entretanto, deverá ficar acima de R$ 2,00.
São conjecturas, visto que ações e reações de política econômica não são uma ciência exata e há uma infinidade de vetores internos e externos que podem contribuir positiva ou negativamente.
Não podemos perder de vista que passamos para o exercício de 2012 com um saldo de importações a contratar câmbio de US$ 19,017 Bi, que impactarão no fluxo cambial.
Da mesma forma, se for proporcionar incentivos internos à indústria, que o governo não deixe de considerar que a indústria automobilística estrangeira aqui estabelecida, sempre reivindicadora de benefícios, foi o ramo que mais remeteu lucros em 2011, algo como US$ 5,58 Bi, tendo apresentado um crescimento de produção de somente 0,7% em relação a 2010, remeteu algo equivalente a US$ 1.647,00 por veículo produzido. Incentivos devem ser dados aos setores que precisam efetivamente.
E mais, que para o PIB crescer a demanda interna precisará estar aquecida, e este é um desafio e uma incógnita ao mesmo tempo.
O fluxo para a BOVESPA por parte dos estrangeiros é bastante intenso e direcionado, fortemente, para PETRO, parece acreditar que a mudança de direção na empresa possa viabilizar a recuperação da extraordinária perda de valor ocorrida no ano passado na Bovespa, mas é importante considerar que as altas ocorridas podem motivar movimentos de realização com a mesma intensidade. Para muitos entendidos em Bolsa, o que se presencia é pontual e não pode ser considerada tendência sustentável.
No dólar, pelo contínuo anúncio de captações externas que vêm sendo feito pelas empresas e bancos no Brasil, e, com o BC mantendo-se firme na estratégia de não intervenção, pode cair um pouco mais, até o ponto de afetar demasiadamente a taxa de juro do cupom cambial, o que não parece distante, por isso poderá ocorrer volatilidade.
Mas não podemos descartar que posturas mais agressivas no curto prazo poderão exigir correções no médio/longo prazos, como elevação do juro e elevação da taxa cambial no final do ano.
O que está presente claramente é a disposição do governo de dar um choque de otimismo na economia.
Vamos aguardar, parece que está mais fácil identificar-se a direção do que o momento.
Sidnei Moura Nehme, Economista.
DIRETOR EXECUTIVO
NGO CORRETORA DE CÂMBIO
www.ngo.com.br
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